A erva-mate (Ilex paraguariensis) transcende a condição de uma simples cultura agrícola no Sul do Brasil. Éla representa um pilar cultural, social e econômico para milhares de famílias produtoras, com presença marcante em bebidas como  chimarrão e tereré. Com a chegada do outono e o encerramento da colheita em abril, os ervais demandam cuidados específicos que são cruciais para a sanidade e a produtividade do próximo ciclo. 

Para garantir a longevidade e a rentabilidade dos ervais, é fundamental conhecer  as estratégias de poda, nutrição e o controle de pragas e doenças, sempre sob uma ótica de sustentabilidade. Este guia detalha as práticas essenciais para conduzir os ervais de forma eficiente e responsável, preservando a qualidade do produto e o equilíbrio do ecossistema. 

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A erva-mate no Sul do Brasil: importância econômica e características da cultura 

A erva-mate é muito mais que uma planta; é um símbolo cultural do Sul do Brasil e uma força motriz para a economia regional. Sua produção está concentrada nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, gerando emprego e renda para diversas comunidades rurais. A espécie arbórea perene demanda conhecimento aprofundado de seu sistema de produção e particularidades para um manejo eficiente e duradouro. 

Distribuição geográfica e sistemas de cultivo 

 A erva-mate encontra seu berço natural na Floresta Ombrófila Mista (Mata com Araucária) do Sul do Brasil, onde se desenvolve no estrato inferior da floresta. Os principais polos produtores estão no sudoeste e centro-sul do Paraná, no Planalto Norte de Santa Catarina, e nas regiões das Missões e Alto Uruguai no Rio Grande do Sul. 

Convivem diferentes sistemas de cultivo: o erval nativo manejado, o erval cultivado em sistema de monocultura e, cada vez mais, em  sistemas agroflorestais (SAFs), que mimetizam condições próximas ao de uma floresta e promovem maior sustentabilidade. A Embrapa Florestas e a EPAGRI são as principais referências de pesquisa e extensão nessas abordagens. 

Ciclo produtivo e épocas de colheita 

O ciclo produtivo da erva-mate é perene, com as plantas atingindo a idade produtiva a partir de 3 a 5 anos e podem  produzir por décadas ou até séculos em ervais nativos bem manejados. A colheita tradicional garalmente ocorre no inverno, com o auge entre os meses de abril e setembro, quando a planta entra em estado de dormência e a concentração de matéria seca e princípios ativos como cafeína e teobromina atingem  níveis ideais. 

A colheita pode ocorrer de forma  manual, semimecanizada ou mecanizada, conforme o porte do erval e a inclinação do terreno e a tecnificação da propriedade. Após a colheita, o outono é o momento ideal para iniciar os tratos culturais essenciais para a recuperação  das plantas para a próxima safra. 

Plantas em um campo aberto

Práticas de manejo da erva-mate no outono 

A estação do  outono é uma janela crucial para a realização de práticas de manejo que para  definir o potencial  produtivo  e a qualidade da safra seguinte. Ações bem planejadas garantem que a planta se recupere do estresse da colheita e se prepare para o novo ciclo de desenvolvimento. 

Poda de formação e poda de produção: quando e como realizar 

A poda é uma das práticas mais importantes no manejo da erva-mate. Existem dois tipos principais para o sistema produtivo da cultura: 

  • Poda de formação: realizada nos primeiros anos do erval e tem a função de moldar a planta, estimular o crescimento lateral e facilitar as  colheitas 
  • Poda de produção: feita anualmente ou a cada dois anos após a colheita, geralmente no  outono (abril a junho), removendo ramos velhos, doentes ou improdutivos, de forma a estimular  novas brotações e manter  a altura e largura controladas 

 Recomenda-se que a poda de produção tenha maior intensidade em ervais mais velhos ou com menor produtividade, e menor intensidade em plantas jovens e vigorosas. Ferramentas higienizadas e afiadas são indispensáveis para evitar a propagação de doenças. As lâminas devem ser desinfetadas entre plantas com solução de hipoclorito ou álcool. 

Adubação no pós-colheita: reposição de nutrientes e manejo da fertilidade 

A adubação no pós-colheita na estação do outono é fundamental para repor os nutrientes extraídos durante o período de crescimento, garantindo energia necessária e reservas  para a próxima brotação. A análise de solo é uma ferramenta indispensável para guiar o manejo da  adubação, indicando as necessidades específicas de nutrientes como nitrogênio, fósforo, potássio, além de micronutrientes. 

O nitrogênio é crucial para o crescimento vegetativo e a formação de biomassa. O fósforo estimula o desenvolvimento radicular e a síntese metabólica, e o potássio aumenta a resistência a estresses e a qualidade do produto. Em ervais orgânicos ou em sistemas agroflorestais, a adubação orgânica com composto, esterco ou adubos verdes é preferencial, promovendo melhoria na fertilidade do solo de forma sustentável, além de melhorar a estrutura do solo e a atividade microbiana. 

Cobertura e conservação do solo no erval 

A manutenção da cobertura do solo no erval é prática essencial para conservação e melhoria da fertilidade. A palhada proveniente dos restos de poda e colheita, ou de culturas de cobertura semeadas entre as linhas de plantio como aveia ou azevém atua como uma barreira  protetora: 

  • Reduz a erosão hídrica e eólica e amortece o impacto da chuva 
  • Mantém a umidade do solo por mais tempo e minimiza as flutuações de temperatura 
  • A decomposição da matéria orgânica contribui para a ciclagem de nutrientes e para a atividade biológica do solo 
  • Suprime plantas daninhas e favorece a biodiversidade do sistema 

Checklist para o  manejo da erva-mate no outono na pós-colheita 

Prática Ação recomendada Período ideal 
Poda de produção Remover ramos velhos, doentes ou improdutivos; desinfetar ferramentas Abril a junho 
Adubação de reposição Aplicar conforme análise de solo; priorizar adubação orgânica em SAFs Após poda, mai./jun. 
Cobertura do solo Manter palhada dos restos de poda ou semear aveia/azevém entre linhas Imediatamente após colheita 
Monitoramento fitossanitário Inspecionar cochonilhas, cancro e outras pragas e doenças Contínuo, início no outono 
Manejo de plantas daninhas Controlar hospedeiras alternativas no entorno do erval Outono/inverno 

Principais pragas da erva-mate e como controlá-las 

O manejo da erva-mate deve incluir um plano eficaz para o controle de pragas dos ervais. A identificação precoce e a adoção de estratégias de manejo integrado de pragas (MIP) são cruciais para proteger a lavoura, minimizar o uso de defensivos e preservar o equilíbrio ambiental. 

Cochonilha: identificação, monitoramento e controle 

A cochonilha da erva-mate (Pseudaulacaspis pentagona e outras espécies) é uma das pragas mais preocupantes, pois ataca ramos e caules, sugando a seiva da planta. Sua presença é detectada por escamas brancas que recobrem a casca, podendo ocorrer fumagina associada a outros insetos sugadores presentes na planta. 

O monitoramento visual regular é essencial. O controle pode envolver: 

  • Poda e eliminação de  ramos infestados 
  • Uso de óleos vegetais ou minerais para controlar  as cochonilhas 
  • Uso pontual de inseticidas específicos em casos severos, respeitando as normas para a produção da erva-mate orgânica 

Lagarta-da-erva-mate e outras pragas desfolhadoras 

A lagarta-da-erva-mate (Thelosia camina) é uma praga desfolhadora que pode causar danos severos. As lagartas se alimentam das folhas, reduzindo a área fotossintética e comprometendo o desenvolvimento da planta. 

O manejo inclui: 

  • Monitoramento por inspeção visual e armadilhas luminosas 
  • Controle biológico com Bacillus thuringiensis (Bt), altamente seletivo e eficaz em estágios iniciais das lagartas 
  • Coleta manual em pequenas áreas 
  • Uso de inseticidas seletivos, com rotação de mecanismos de ação para evitar resistência 

A manutenção da biodiversidade no entorno do erval com a presença de inimigos naturais é uma das estratégias mais eficazes para o controle natural dessas pragas, especialmente em sistemas agroflorestais. 

Estratégias de manejo integrado de pragas nos ervais 

O MIP é a abordagem mais eficiente para o manejo da erva-mate, combinando táticas para manter as populações de pragas abaixo do nível de dano econômico: 

  • Monitoramento contínuo: inspeções regulares para identificação precoce e avaliação dos níveis populacionais 
  • Controle cultural: poda de ramos infestados, eliminação de plantas daninhas hospedeiras e nutrição equilibrada da planta 
  • Controle biológico: preservação de inimigos naturais e, quando possível, liberação de agentes de biocontrole 
  • Variedades resistentes: seleção de clones com menor suscetibilidade a pragas e doenças 
  • Controle químico (último recurso): aplicação de defensivos apenas quando necessário, com produtos seletivos e registrados para a cultura e rotação de grupos químicos 

Principais doenças da erva-mate e como preveni-las 

As doenças que incidem sobre aa erva-mate representam um desafio constante para o produtor. A prevenção é a melhor estratégia, pois uma vez estabelecida, muitas doenças são difíceis de erradicar. Conhecer os agentes causais, os sintomas e as condições favoráveis ao seu desenvolvimento é fundamental para proteger os ervais. 

Cancro do tronco: agente causal, sintomas e manejo 

O cancro da erva-mate, causado principalmente pelo fungo Cylindrocladium spathulatum, é uma das doenças mais graves. O patógeno penetra na planta por ferimentos, como cortes de poda ou danos mecânicos, causando lesões necróticas na casca do tronco e ramos que evoluem para cancros profundos, com rachaduras e exsudação de goma. Em casos severos, pode anelar o tronco e levar à morte da planta. 

O manejo é essencialmente preventivo: 

  • Mudas sadias e certificadas: utilizar sempre material propagativo de origem conhecida e livre de patógenos 
  • Ferramentas sanitizadas: desinfetar as tesouras e serrotes de poda entre plantas com alcool ou hipoclorito de sódio 
  • Proteção dos cortes: aplicar pasta fungicida ou calda bordalesa nos cortes de poda  para evitar infecção 
  • Poda em dias secos: evitar a poda em dias chuvosos reduz o risco de infecção por esporos transportados pela água 
  • Eliminação de plantas severamente afetadas: remover e destruir plantas com cancros avançados para evitar a disseminação 

Outras doenças de importância nos ervais cultivados 

 Além do cancro, outras doenças podem afetar o erval. O sapeco foliar (causado por Phyllosticta ilicicola) provoca manchas necróticas nas folhas com desfolha precoce, sendo favorecido por alta umidade e temperaturas amenas. O controle passa pela escolha de cultivares mais tolerantes, adequado espaçamento e manejo do dossel e, se necessário, aplicação de fungicidas cúpricos. 

Outras manchas foliares e doenças de raiz também podem ocorrer, exigindo monitoramento constante. Para a erva-mate orgânica, a prevenção via práticas culturais e produtos permitidos pela certificação é o objetivo primordial. 

Veja também: Como os nematicidas biológicos atuam: entenda os mecanismos de ação   

Práticas culturais que reduzem a pressão de doenças 

As práticas culturais são a espinha dorsal da prevenção de doenças nos ervais: 

  • Cultivares: priorizar materiais genéticos com resistência ou tolerância comprovada às doenças prevalentes 
  • Poda correta: realizar na época e forma adequadas, com ferramentas sanitizadas e proteção dos cortes de maior porte 
  • Nutrição equilibrada: plantas bem nutridas são mais resistentes e responsivas a infecções fúngicas e bacterianas 
  • Espaçamento adequado: favorecer a aeração do erval e reduzir o período de molhamento foliar 

Principais pragas e doenças da erva-mate e estratégias de manejo 

Problema Agente/espécie Condição favorável Estratégia de manejo 
Cochonilha Pseudaulacaspis pentagona Alta densidade de plantas, estresse Óleos, controle biológico, inseticidas seletivos 
Lagarta desfolhadora Thelosia camina Alta umidade, temperatura amena Bacillus thuringiensis, inseticidas seletivos, MIP 
Cancro do tronco Cylindrocladium spathulatum Ferimentos na poda, alta umidade Poda sanitizada, pasta fungicida nos cortes, mudas sadias 
Sapeco foliar Phyllosticta ilicicola Alta umidade, temp. amena Cultivares tolerantes, fungicidas cúpricos, boa aeração 

Manejo sustentável e sistemas agroflorestais com erva-mate 

O conceito de manejo sustentável de ervais ganha forç nos últimos anos , refletindo a demanda por produtos que respeitem o meio ambiente e as comunidades. Os sistemas agroflorestais (SAFs) e o cultivo de erva-mate orgânica aliam produtividade, conservação e valorização do produto, sendo cada vez mais estudados pela Embrapa Florestas e pela Epagri

Benefícios do cultivo em sistemas agroflorestais 

O cultivo da erva-mate em SAFs mimetiza o ambiente natural da espécie, que é o sub-bosque de florestas. Os benefícios são múltiplos e bem documentados: 

  • Conservação da biodiversidade: manutenção da flora e fauna nativas, criando ambiente mais equilibrado e com maior controle natural de pragas 
  • Melhoria do solo: diversidade de raízes e deposição de matéria orgânica enriquecem e melhoram a estrutura do solo 
  • Proteção contra estresses: as árvores maiores oferecem sombra e proteção contra a incidência de vento e geadas, favorecendo o desenvolvimento da erva-mate 
  • Diversificação de renda: além da erva-mate, o produtor pode colher madeira, frutos ou outras culturas no sistema 
  • Redução de pragas e doenças: maior biodiversidade leva a maior equilíbrio ecológico e mais inimigos naturais das pragas 

Erva-mate orgânica: requisitos e oportunidades de mercado 

A demanda por erva-mate orgânica tem crescido de forma expressiva, impulsionada por consumidores que buscam produtos mais saudáveis e ambientalmente responsáveis. A certificação orgânica exige o cumprimento de normas que proíbem o uso de fertilizantes sintéticos e agrotóxicos convencionais, priorizando: 

  • Adubação orgânica com composto, esterco e adubos verdes 
  • Controle biológico de pragas e doenças 
  • Práticas de manejo que promovam a saúde do solo e a biodiversidade 

A produção de erva-mate orgânica abre portas para mercados premium com preços mais elevados e valorização do trabalho do produtor que investe em sustentabilidade. Para mais informações sobre agricultura sustentável, acesse o portal Mais Agro. 

Boas práticas para garantir produtividade e qualidade no próximo ciclo 

As práticas de manejo realizadas no outono são determinantes para a saúde e a produtividade do erval na próxima colheita. É a fase de reenergizar a planta, protegê-la e prepará-la para o novo ciclo de crescimento. 

Em resumo, as principais ações que o produtor deve realizar no outono incluem: 

  • Poda pós-colheita: remover galhos velhos, doentes ou danificados com ferramentas sanitizadas, estimulando novas brotações 
  • Adubação de reposição: aplicar adubos orgânicos ou minerais com base na análise de solo, repondo nutrientes essenciais 
  • Cobertura do solo: manter ou implementar palhada ou plantas de cobertura para proteger o solo e conservar umidade 
  • Monitoramento fitossanitário: inspecionar o erval para identificar precocemente cochonilhas, cancro e outros problemas 
  • Manejo da área: limpar o entorno do erval, controlar plantas daninhas e hospedeiras alternativas 
  • Planejamento: revisar o plano de manejo para o próximo ano, ajustando estratégias conforme os resultados da safra anterior 

Erva-mate bem manejada: sustentabilidade e rentabilidade que passam de geração em geração 

O manejo da erva-mate no outono é muito mais do que uma rotina agronômica. É um investimento na longevidade dos ervais, na qualidade do produto e na saúde do ecossistema que os sustenta. Cada decisão tomada no pós-colheita, da poda correta ao monitoramento fitossanitário, reflete diretamente na colheita seguinte e na capacidade do produtor de manter uma atividade rentável e sustentável por gerações. 

A combinação entre práticas culturais preventivas, manejo integrado de pragas e doenças, nutrição equilibrada e sistemas agroflorestais é o caminho mais sólido para garantir ervais produtivos, resilientes e alinhados com as exigências crescentes de mercados que valorizam a origem e a sustentabilidade do produto. 

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